Embora a gastronomia sempre tenha estado presente na história da sociedade humana, nos últimos tempos tornou-se o centro das atenções da mídia e desde o início do século XXI tornou- se objeto de reflexão estética e ética, bem como de prática artística. Como objecto de obras de carácter mais ou menos religioso ou decorativo e depois de ter sido objecto recorrente na pintura e escultura durante séculos num continuum que remonta aos asarotos oikos do período clássico à natureza morta, passando por Arcimboldo, o A Última Ceia, os piqueniques e festas dos impressionistas e os movimentos artísticos do início do século XX, a gastronomia, os produtos alimentares e os processos gastronómicos são atualmente um tema recorrente de conversa, um objeto de interesse público e político, justificação para a compra de equipamentos futuristas na aparência e motivo de peregrinação a espaços gastronómicos aureolados pelo chef, as estrelas, os garfos e outros símbolos de sucesso que gravitam à sua volta.
Atentos a esse fenômeno da nova centralidade da gastronomia na sociedade contemporânea, os artistas a incorporaram ao seu trabalho, estabelecendo alianças com chefs e laboratórios culinários e, reconhecendo o componente autoral do trabalho gastronômico, apropriam-se de processos, temas e utensílios de cozinha. Fora do universo das artes e da cultura, ou dos circuitos devidamente informados, o cidadão comum também acompanha os concursos na televisão e noutros meios que prometem transformar os seus pares em titãs da cozinha. Nunca antes tanto espaço na mídia foi dedicado ao ofício de cozinhar, permitindo que talentos culinários competissem por audiências com atletas, celebridades e políticos.
Passando ao tema em pauta, poderíamos considerar a emergência da cozinha, seus agentes e seus processos no cerne da criatividade artística como exemplo da vitalidade da arte contemporânea e de sua capacidade de reflexão sobre a sociedade da qual é parte. parte. . Numa época em que a comida é de fácil acesso (nunca antes a comida foi tão barata, abundante e disponível), as pessoas (no mundo ocidental) redirecionam seus apetites para outros níveis de prazer. A experiência gastronómica deixou de satisfazer uma necessidade básica (como é o caso do vestuário) para se tornar um símbolo do nível de bem-estar económico e social, estatuto intelectual ou autoafirmação, tanto mais relevante pela sua efemeridade, singularidade e caráter individual, apesar do caráter eminentemente social da gastronomia.
Sobre a atividade artística e sua ligação com o campo da gastronomia
e/ou restauração (sem esquecer Leonardo e sua taberna florentina Delle
Tre Lumache, suas invenções e atividades como mestre de festas e
banquetes da família Sforza), destacamos Daniel Spoerri, Gordon
Matta-Clark e Antoni Miralda, a obra de Paco Cao e as performances
gigantescas de Tiravanija.
Os
três projetos de restauração de Spoerri, Matta-Clark e Miralda, entre o
final dos anos sessenta e meados dos anos oitenta, o primeiro em
Dusseldorf e os demais no Soho e Tribeca, em Nova York, revisitaram a
tradição dos espaços onde a cultura burguesa desenvolvido, onde foram
discutidos temas artísticos em torno da comida e bebida.
Em
Dusseldorf, Spoerri também trabalhou como cozinheiro e programador para
a galeria adjacente; em Nova York, Miralda foi pioneira na promoção da
gastronomia espanhola para clientes como Michel Basquiat e Andy Warhol,
enquanto Matta-Clark contratou um artista convidado para criar o menu
todos os dias. Mais recentemente temos os casos dos restaurantes abertos
em França no Palais de Tokyo e do Mac/Val pelo historiador e crítico de
arte Gilles Stassart (entrevistado este ano pelo Expresso no espaço
Bulthaup Amoreiras), The Pharmacy, em Londres, uma empreendimento de
Matthew Freud e Damien Hirst, bem como a colaboração de Larry Gagosian
com o chef japonês Masayoshi Takayama no Kappo Masa de Nova York ou o
bem-sucedido Matador Club em Madri, que atrai colecionadores de arte e
gastrófilos todos os dias. Em Portugal, temos algumas atividades como a
Trienal o Alentejo, 2013/2014, Mar e Montanha, de 2015/2016, e Fazer
render o Peixe de 2016/2017.
Estes
projetos, baseados numa equipa de produção curatorial e idiossincrática
que inclui membros do campo da comunicação política e do cinema, bem
como do jornalismo e da crítica gastronómica, têm sido organizados como
programas de residência artística em Portugal fora dos grandes centros
urbanos, convidando os agentes culturais a se instalarem em regiões com
características muito marcadas, num processo de reflexão intimamente
ligado à produção endógena em que a agricultura e a gastronomia têm tido
uma relevância crescente. A Trienal, que destacou a atuação do Almoço
das 500 Avós de Tatsumi Orimoto (integrante do grupo Fluxus e antigo
colaborador de Nam June Paik) no Convento de São Bento de Cástris em
Évora, uma festa comunitária em torno da gastronomia alentejana e
questões de género, com a colaboração do chef Pedro Mendes (também
responsável pelo jantar do Matador Club no bulthaup Chiado em maio de
2016, no âmbito do programa ARCO VIP) deu origem à edição especial de um
vinho da marca Pierre Gonnor. O Mar e Montanha foi organizado em torno
de duplas de artistas e chefs, em que o cozinheiro também era o guia na
região onde os produtos eram pesquisados e selecionados.
A
cada artista foi atribuído um ingrediente chave: flor de sal, amêndoa,
atum, polvo, alfarroba… Mónica Bengoa trabalhou com a batata-doce,
Eugenio Ampudia com os percebes, Miki Leal com o figo… Neuner, Ricardo
Costa ou Leonel Pereira colaboraram na cozinha com artistas para criar
vídeos, cerâmicas, vidraria cirúrgica e novas receitas. No ciclo final
foram apresentados simultaneamente projetos artísticos e gastronómicos:
Miki Leal e Beatriz Lobo trabalharam com o chef galego Fernando Agrasar,
e Gilles Stassart juntou-se a Doug Fitch, após a colaboração deste
último com Antoine Westermann na criação do Le Coq Rico Em Nova Iorque.
Tudo
dentro de um espírito gastronómico muito de acordo com a filosofia
bulthaup, demonstrando assim, como assinalou Cristina Giménez, que a
gastronomia é um dos campos culturais onde a criatividade atinge os mais
altos níveis de inovação e excelência.